Em 1889, ainda sob o nome de Festas dos Artistas, começavam a ser esboçadas, quase em silêncio, aquelas que hoje
o mundo conhece como Festas do Povo. Não nasceram com ambição de grandeza, nem com o propósito de serem vistas além das suas ruas. Nasceram de um gesto simples, genuíno e profundamente humano: o desejo de celebrar em conjunto.

Desde então, o Povo de Campo Maior tornou-se, sem nunca o reivindicar, o maior ícone desta história. Um povo que não esperou por reconhecimento externo para fazer da sua identidade uma obra coletiva. Um povo que, ao longo de décadas, soube transformar papel em flor, rua em jardim e vila em palco, levando as suas tradições muito para além das fronteiras físicas e geográficas.

O que aqui aconteceu — e continua a acontecer — não se ensina facilmente, nem se replica. É, por si só, um caso de estudo: uma comunidade inteira que constrói, com as próprias mãos, algo maior do que a soma das partes. Sem hierarquias rígidas, sem protagonistas individuais, sem marcas impostas. Apenas vontade comum, dedicação partilhada e um profundo sentido de pertença.

As Festas do Povo não são apenas memória, nem apenas futuro. Vivem num território emocional onde coexistem os que já partiram, os que estão e os que ainda virão. São a lágrima discreta que acompanha o sorriso da recordação. São o orgulho silencioso de quem olha para cima e reconhece, em cada pétala, horas de trabalho invisível. São a certeza de que a tradição, quando cuidada, não envelhece — renova-se.

Aqui, nada é feito por obrigação. Tudo é feito por compromisso. Cada flor carrega histórias, cada rua guarda segredos, cada edição deixa marcas que não se apagam. Nasceram das mãos, das vontades e dos corações de quem chama Campo Maior de casa.

Foi essa força coletiva, construída ao longo de mais de um século, que levou esta tradição a ser reconhecida internacionalmente. Mas mais importante do que qualquer distinção, é o facto de as Festas continuarem a pertencer a quem sempre as fez existir: o povo.

Porque enquanto houver alguém disposto a dobrar um pedaço de papel e transformá-lo em flor, enquanto houver vizinhos que se juntam para fazer acontecer, enquanto houver uma comunidade que acredita no valor do que constrói em conjunto, as Festas do Povo continuarão a florescer.

E em Campo Maior, como sempre, tudo nasce das mãos do povo.

A origem das festas

Para se perceber a origem das Festas do Povo,
é preciso recuar até ao século xviii e às festas
de São João Baptista, padroeiro de Campo Maior,
que se realizavam a 28 de outubro para comemorar
a data em que, em 1712, a povoação se tinha libertado
de “um cerco que pusera em risco os seus bens
e as suas vidas”, segundo os documentos da época.

Francisco Pereira Galego, professor campomaiorense que investigou diversas facetas da história da vila, conta, na obra Campo Maior. As Festas do Povo das origens à atualidade (Livros Horizonte, 2004), como essas festas caíram um pouco no esquecimento na segunda metade do século xix, e, quando foram retomadas, no final desse século, recuaram para o final de agosto e início de setembro, abandonando o carácter exclusivamente religioso para passarem a ser sobretudo festas populares: mantinha-se a procissão, mas agora com ornamentação e iluminação noturna das ruas, touradas, bailes e outras diversões.